O ténis de alta competição é cada vez mais exigente. O nível de performance dos jogadores e o número de competições a disputar é cada vez maior, os jogadores precisam estar mais vezes em forma e durante mais tempo, quase não existe período preparatório (pré-temporada), o planeamento dos torneios é realizado com pouca antecipação e existe cada vez menos tempo de preparação.
Esta tendência contraditória, de os jogadores necessitarem cada vez mais estar em melhor forma com cada vez menos tempo para se prepararem, exige que o treino seja mais específico e intencional. É necessário organizar o treino com critério e objectividade, seleccionar os exercícios de acordo com as necessidades concretas de cada atleta (individualização), onde a quantidade e a qualidade dos estímulos de treino, sejam eles ao nível técnico, táctico, físico ou psicológico, assumam um papel decisivo.
O treinador deverá conhecer muito bem os seus atletas, deve saber exactamente o que é que tem que desenvolver e qual o caminho a percorrer. Os exercícios devem ser criteriosamente seleccionados, de modo a constituírem "estímulo apropriado" às capacidades e/ou comportamentos que se pretendem desenvolver, e organizados segundo determinados princípios de forma a rentabilizar o tempo de treino.
Com o objectivo de tornar mais específico e intencional o processo de treino, neste trabalho iremos caracterizar e sistematizar um aspecto que consideramos fundamental na preparação de um tenista de alta competição.
A CONSISTÊNCIA DE JOGO
A consistência de jogo, muito embora englobe o conjunto das situações do jogo (ambos os jogadores no fundo do court, um jogador se aproxima ou está na rede, o adversário aproxima-se ou está na rede, quando se serve e se responde ao serviço), geralmente está relacionada com o jogo de fundo do court e depende de um conjunto de factores de natureza técnico/táctica, física e psicológica. O jogador consistente é essencialmente um jogador que comete poucos erros não forçados, tem a capacidade de gerir o ritmo e a qualidade da bola (direcção, distância, altura, velocidade [potência] e efeito) de acordo com a situação de jogo, tem vantagem em “rallies” prolongados e numa situação de equilíbrio de fundo do court tem a capacidade de criar situações de vantagem sobre o adversário e/ou obrigá-lo a cometer erros.
FACTORES FISIOLÓGICOS
No que diz respeito à condição física, o jogador consistente, como especialista que é em jogadas "prolongadas", tem que, durante um longo período de tempo, ter a capacidade de desenvolver repetidamente esforços intensos e de curta duração.
Segundo Schonborn, 1987, Reilly, 1990 o tempo médio de duração das jogadas pode variar entre 2 e 5 segundos em superfícies consideradas rápidas, dependendo da existência ou não de acções de rede na sequência do serviço. Em superfícies lentas (terra batida) as jogadas são compostas em média por 8 batimentos e duram por volta dos 10 segundos. Os “rallies” mais demorados em termos médios duram menos de 20 segundos.
Neste caso, como pretendemos caracterizar as exigências da consistência de jogo, interessa-nos considerar a duração média dos “rallies” mais prolongados que, como vimos, são inferiores a 20 segundos. Entre as jogadas e os jogos existem períodos de descanso de duração estandardizada em que a actividade do jogador é muito reduzida.
Durante as jogadas são percorridos em média 14 metros (Schonborn, 1987), em que são realizados diferentes tipos de deslocamento (enquadramento, posicionamento e recuperação), combinados com intensas travagens e constantes mudanças de direcção que apelam a uma grande capacidade de aceleração nas várias direcções, onde a capacidade perceptiva (leitura do jogo, avaliação da trajectória da bola, etc.) e de antecipação da resposta desempenham um papel decisivo.
A duração do encontro pode durar até várias horas, dependendo do número de sets que são disputados, das características dos jogadores (perfil de jogo) e da superfície do campo (rápido ou lento).
Selinger et al. (1973; cit in Reilly, 1991), num estudo que realizou com o objectivo de caracterizar o esforço realizado durante o jogo de ténis, onde pretende relacionar a análise dos deslocamentos com alguns parâmetros fisiológicos, refere-nos que, no que diz respeito estritamente ao tempo de exercício, a energia que é necessária para garantir o esforço durante o jogo de ténis deriva essencialmente dos sistemas anaeróbios (ATP-CP e ácido láctico), nas percentagens médias de 70% para o sistema anaeróbio aláctico, 20% anaeróbio láctico e 10% para o aeróbio.
Muito embora, estes dados digam respeito à globalidade das acções do jogo de ténis, não se refiram especificamente às acções que melhor definem a "consistência de jogo", nem caracterizem apenas jogadores considerados consistentes, permitem-nos ficar com uma ideia da contribuição relativa dos várias sistemas de produção de energia durante a fase de exercício.
É fácil concluir que a fonte anaeróbia aláctica desempenha um importante papel no fornecimento de energia durante o exercício e que o sistema anaeróbio láctico participa de forma modesta na manutenção do esforço a níveis máximos de intensidade após ter sido esgotada a fonte anaeróbia aláctica.
Será talvez possível supor que um jogo que se baseie em “rallies” prolongados exija uma contribuição ligeiramente superior dos sistemas anaeróbio láctico e sobretudo aeróbio. Sabemos, no entanto, que quanto maior for a quantidade de oxigénio captado, fixado, transportado e utilizado pelo organismo durante um esforço máximo de características gerais (potência aeróbia), mais rapidamente o organismo repõe os seus "stocks" de ATP-CP e recupera da fadiga láctica. Por outro lado, quanto maior for a capacidade de realizar esforços em regime aeróbio a um nível de intensidade próximo do V02 máx., menor será a participação do processo de produção de energia anaeróbio láctico. Em suma, o jogador consistente, para além da necessidade de ser veloz (ágil) deve estar bem preparado em termos aeróbios (limiar anaeróbio o mais tardio possível e um bom consumo máx. de 02), para permitir uma boa recuperação durante os períodos de paragem do jogo e retardar o apelo significativo à fonte anaeróbia láctica.
Muito embora, não tenham sido encontrados valores significativos de acumulação de ácido láctico durante o jogo de ténis, em nosso entender, na preparação do jogador consistente deve ser dada alguma atenção à capacidade de tolerância láctica (sobretudo se o limiar anaeróbio for baixo).
Paralelamente às condicionantes energéticas, a força (resistência e potência) garante a continuidade e o carácter explosivo das acções técnico/ tácticas. A flexibilidade, por outro lado, parece ter influência na eficiência dos movimentos (coordenação), na recuperação e na prevenção de lesões.
Por último, convém ainda assinalar a importância da coordenação a este nível de treino. Não sendo uma qualidade física específica do perfil de jogador consistente, a coordenação assume uma relação estreita com o dispêndio energético que não deve ser desprezada. Uma habilidade motora coordenada pressupõe que as acções intersegmentares sejam realizadas de forma bem sincronizada e com o limiar de contracção muscular necessário; ou seja, os movimentos são fluidos sem sobressaltos e mecanicamente eficientes (relação entre o gasto energético e o trabalho produzido).
FACTORES PSICOLÓGICOS
A suportar e a ser suportado pelas capacidades técnico/tácticas e fisiológicas, o perfil psicológico do jogador consistente é um bom exemplo de robustez mental. No seio da multiplicidade de variáveis que determinam o "estado ideal de performance", (pressão, condição física, domínio técnico/táctico, comportamento do adversário, resultado, comportamento do público, etc.), o jogador consistente consegue sempre encontrar forma de jogar perto das suas máximas potencialidades. Tem essencialmente um grande controlo sobre o seu estado emocional (consegue manter-se durante muito tempo no seu "estado ideal de performance"), é persistente e extremamente paciente ao mesmo tempo que demonstra uma enorme confiança em si próprio.
A ESPECIFICIDADE DO PROCESSO DE TREINO
Uma das preocupações centrais do nosso trabalho é tomar o treino mais objectivo e intencional, o que pressupõe especificidade nos estímulos de treino (exercícios). Os programas de treino devem ser elaborados de forma a desenvolverem as qualidades (técnico/táctica, físicas e psicológicas) específicas de cada atleta, aquelas que são mais necessárias para atingir os objectivos definidos. O treino técnico deve ser realizado sem nunca se perder de vista a dimensão táctica do jogo. O batimento de direita ou de esquerda por si só não existem, apenas têm significado quando inseridos no contexto do jogo. A especificidade do treino a este nível, estabelece que os exercícios devem ser seleccionados de acordo com os objectivos que se pretendem alcançar. Por exemplo, se pretendermos desenvolver, dentro do aspecto particular da consistência de jogo, o "controlo da profundidade da bola", é necessário que os exercícios, de facto, visem os aspectos mais importantes que caracterizam esta capacidade técnico/táctica na situação de jogo.
Teremos então que retirar do jogo as situações que melhor caracterizam aquela capacidade e, de acordo com as necessidades do atleta, elaborar exercícios que reproduzam essas situações.
Segundo Mathews & Fox (1983), a especificidade do treino e dos exercícios em termos fisiológicos deve ser encarada essencialmente a dois níveis: metabólico e neuromuscular.
Ao nível metabólico é necessário considerar os diferentes sistemas energéticos (aeróbio, anaeróbio aláctico e láctico) que, ao possuírem capacidades e potências distintas, obrigam os exercícios a uma determinada intensidade e duração. Os exercícios de baixa intensidade e longa duração dependem fundamentalmente do sistema aeróbio e os exercícios de alta intensidade e curta duração dos sistemas anaeróbios.
Um pressuposto básico do treino é que quanto mais solicitado for um determinado sistema energético, maior será a capacidade e a qualidade do desempenho nas actividades que dependem desse sistema. Deste modo, em termos fisiológicos, para garantir a especificidade do efeito da carga de treino, é necessário seleccionar os exercícios que, de facto, solicitem de forma adequada as fontes energéticas que mais intervêm e/ou que mais interessam desenvolver.
Ao nível neuromuscular, importa referir que a especificidade do treino depende do tipo de unidades motoras ou de fibras musculares (contracção lenta e rápida), assim como dos padrões específicos de contracção que são solicitados durante os exercícios. Os exercícios utilizados durante o treino, devem então recrutar os mesmos grupos musculares e os estímulos devem aproximar-se o mais possível dos padrões de movimento realizados durante o jogo.
Resumindo, a selecção dos exercícios, em termos fisiológicos, deve obedecer aos seguintes critérios:
* Solicitar exactamente a(s) fonte(s) energética(s) que se pretende(m) desenvolver;
* Recrutar os mesmos grupos que são utilizados no jogo;
* Movimentos o mais próximo possível dos que são realizados na situação real de jogo;
A dimensão psicológica, como já referimos, reforça e é reforçada por todo o trabalho de preparação técnico/táctico e físico. A objectividade e a intencionalidade das situações de treino são, por si só, um factor muito importante de reforço psicológico. A preparação psicológica, tal como os outros tipos de preparação, será tanto mais específica quanto os estímulos de treino (exercícios) se direccionarem para as necessidades do atleta, de acordo com os aspectos psicológicos que caracterizam o jogo ou a situação do jogo que se pretende desenvolver.
A noção de especificidade, como é fácil perceber, sugere uma relação estreita entre os diferentes níveis de preparação. De facto, ganhamos especificidade e objectividade no treino se conseguirmos articular (integrar), a todo o momento, os factores de treino técnico, táctico, físico e psicológico que caracterizam os aspectos do jogo que queremos melhorar.
Comunicação apresentada no Worldwide Coaches' Workshop/European Tennis Association Coaches' Symposium, Palma de Maiorca 1997.